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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Mitologia 10: Orcômeno


A Dinastia de Orcômeno

Orkhomenos (Latim Orchomenus, Português Orcômeno) era uma cidade na Beócia, possuindo homônimas na Arcádia, Eubéia e Tessália.

A região ao redor de Orkhomenos era chamada de Andreis, referindo-se ao seu primeiro rei mítico Andreus, filho do deus-rio tessálio Pêneios, que se casou com Euippe, filha de Leukon e neta do casal Athamas e Themistô. Athamas, um eólida, teria migrado da Tessália para a Beócia, onde teve seus filhos Leukon, Ptoos, Skhoineus e Erythrios, e deu nome à região de Athamania. Themistô era filha de Hypseus, outro filho do rio Pêneios.

Andreus passou a coroa ao seu filho Eteoklês, instituidor do culto às deusas Kharites. Morrendo sem filhos, Eteoklês cedeu terras a Halmos (Almos), filho de Sisyphos, onde este último fundou a cidade de Halmones. Halmos teve duas filhas: Khrysê, que amada por Ares teve a Phlegyas; e Khrysogeneia, que amada por Poseidon teve a Khrysês. Phlegyas, um guerreiro brutal e violento, sucedeu a Eteoklês, e deu nome à região de Phlegyantis.

Phlegyas teria sido o pai de Korônis, que amada por Apollon foi mãe de Asklêpios. Foi sucedido pelo sobrinho Khrysês, que por sua vez passou a coroa ao filho Minyas, cujo reinado foi marcado por uma riqueza assombrosa. Minyas era o epônimo dos mínios (Minyeioi). Minyas desposou Euryphassa, filha de Hyperphas, e teve muitos filhos, dentre os quais Orkhomenos, morto sem descendência, cedeu o trono a Klymenos, filho de Presbon, um descendente de Athamas.

Minyas foi pai também Araithyraia, raptada por Dionysos, e mãe de Phlias, epônimo da cidade de Fliunte (Phlious), e das irmãs Miníades, Arrhippe, Leukippe e Alkathoe, que foram enlouquecida por este mesmo deus e transformadas em morcegos.

Estudiosos de Mitologia Comparativa, como Georges Dumézil e Jaan Puhvel, identificaram elementos indo-europeus na sucessão de reis lendários: Andreus, um “primeiro homem” (de aner, “herói”), sucedido por Eteoklês, o legislador, Phlegyas, um guerreiro violento cujo nome tem conotações incendiárias (cf. phleg- “queimar”), e Minyas, criador do primeiro tesouro. Representariam assim, as três funções dumezilianas: soberania, guerra e fertilidade.

Nesta genealogia mesclam-se três “dinastias” lendárias: os Atamântidas e Sisífidas, ambos considerados filhos de Aiolos, e os Penêidas, descendentes do rio tessaliano Peneu (Pêneios). Depois da morte de Orkhomenos, o trono passa a descendentes de Athamas e sua primeira esposa Nephelê. É possível que representem diferentes estratos de povoadores da região. O povo mais recente seria o dos ditos Atamânidas, representados pelos reis lendários Presbon (filho de Phrixos), Klymenos e Erginos. Em sua chegadas estes povos assimilaram tradições mais antigas, referentes aos ditos Sisífidas e Mínios. Há genealogias divergentes para Minyas, segundo outra versão ele seria filho, e não pai de Orkhomenos. Talvez os Mínios fossem correspondessem a aquele estrato menos antigo, ou talvez fossem um grupo intermediário entre os Sisífidas (relacionados a Corinto) e os Atamânidas (relacionados à Tessália e a Tebas). O substrato mais antigo seria o dos Penêidas, remontando a uma ancestralidade mítica no Rio Peneu.

Muitos dos personagens desta genealogia são epônimos de cidades e lugares: Athamas, da Athamania; Halmos, de Halmones; Andreus, de Andreis; Orkhomenos; Phlegyas, de Phlegyantis; e Philas, epônimo de Fliunte.

Na geração dos mínios há um grande número de personagens com o prefixo Khrys-: Khrysês, Khrysê e Khrysogeneia. Em grego, khrysos significa “ouro”, mas serão estes nomes gregos ou pré-gregos? Haverá relação entre Minyas e Minôs, o rei de Cretas? Outra versão, exposta em Pausânias, diz que Athamas sucedeu a Andreus, e que adotou os filhos de Thersandros, Haliartos e Korônos, que se tornaram epônimos das cidades Haliartos e Korôneia.

Eteokles também era considerado como filho do Rio Céfios (Kêphisos), conforme escreveu Pausânias (9.34.10): “Quando este Eteoklês tornou-se rei, ele deixou que o país ainda fosse chamado Andreis (de Andreus), mas estabeleceu duas tribos, uma chamada Kêphisias, e outra em sua própria homenagem. Quando Almos, filho de Sisyphos, veio a ele, concedeu-o terras onde surgiu o povoado de Almones (de Almos), que mais tarde tornou-se Olmones”.

A mitologia dos descendentes do Rio Peneu inclui Lápitas e Centauros, e está fortemente associada à Tessália, e não à Beócia. A relação de Eteoklês com o rio beócio Kêphisos parece mais razoável. É difícil nesta miscelânea de lendas entrelaçadas e versões contraditórias filtrarmos os diversos componentes originais. Parece-me que os clãs Sisífidas e Atamântidas vieram a se tornar posteriormente mesclados de forma artificial, e talvez representem mesmo diferentes tradições independentes.

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