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segunda-feira, 2 de junho de 2008

Genealogia 219: Patronímicos Portugueses

Os sobrenomes ibéricos com sufixo -es (Português -es, Espanhol -ez) originam-se de patronímicos medievais, e a origem deste sufixo ainda é muito discutida. Uns consideram-no como de origem basca, outros vêem nele apenas uma derivação do genitivo latino -ici, e ainda há aqueles (com os quais concordo) que acreditam numa origem gótica:
Nominativo Farthinanths "Fernando" > Genitivo Farthinanthis "do Fernando, Fernandes"
Nominativo Hrôthareiks "Rodrigo" > Genitivo Hrôthareikis "do Rodrigo, Rodrigues"

Iberic surnames with "es", as suffix (Portuguese -es, Spanish -ez, Catallan -is) came from Middle Age patronymics, and their origin is disputed. Could be from basque origin, or from Latin genitive -ici, or (more likely) have a Gothic origin.

Estes Patronímicos referiam-se ao nome do pai, não constituindo verdadeiros nomes de família, o que só aconteceu a partir do século XVI, aproximadamente. Um João filho de Ramiro, seria João Ramires, seu filho Nuno, seria Nuno Eanes, um neto Fernando, filho do último, seria Fernando Nunes, etc.

Lista de Patronímicos:

Álvaro - Álvares, Alves
Antônio - Antunes
Bermudo, Bermui,Vermui - Bermudes, Bermuis
Diogo - Dias
Egas - Viegas (< Ebenegas < Ibn Egas, árabe)
Ermígio - Ermiges
Estêvão - Esteves
Fernando - Fernandes
Froila (Frauila), Froilo - Fróis, Fróes, Flores
Garcia - Garcês
Gonçalo - Gonçalves
Gueda - Guedães, Guedes
Guterro - Guterres
João - Eanes, Enes, Anes
Lopo - Lopes
Martinho - Martins
Mendo, Mem - Mendes
Nuno - Nunes
Osório, Osouro - Osores
Paio (Pelágio) - Pais
Pedro - Pires, Peres
Ramiro - Ramires
Rodrigo (Rui) - Rodrigues, Roiz, Ruiz, Roriz
Savachão (arcaico de Sebastião) - Savachães
Simão - Simões
Soeiro - Soares
Trastamiro - Trastamires
Vasco - Vaz, Vasques

sábado, 20 de outubro de 2007

Genealogia 5: Evolução dos sobrenomes portugueses (III)

Continuando o post anterior...
Na época do início da colonização brasileira, os sobrenomes portugueses pareciam ser quase aleatórios. É um sistema tão confuso que parece caótico.
Mas não é.
O que acontecia era a ausência de padronização. Hoje em dia a regra é sobrenome materno+paterno. Naqueles dias, não. Um casal com dez filhos poderia dar a eles dez combinações diferentes. Podiam usar só o paterno, só o materno, materno+paterno e paterno+materno; podiam adotar sobrenomes de antepassados mais antigos, muitas vezes repetindo igual.

Por exemplo, um casal Manuel Pereira e Maria Gonçalves geram um filho Belchior Pereira. Este Belchior se casa com uma Catarina de Sousa, e podia batizar uma filha com o nome da avó "Maria Gonçalves. Aqueles que forem no futuro pesquisar quebrarão a cabeça para entender como uma Maria Gonçalves pode ser filha de Belchior Pereira e Catarina de Sousa. Tal costume era extremamente comum entre os séculos XVI e XVIII.

O aumento da migração para o Brasil também levou à disseminação de um costume já usado em Portugal. Talvez para evitar o excesso de homônimos, adicionava-se o nome do lugar de origem ao sobrenome. Assim, um Manuel Lopes vindo de Lisboa virava "Manuel Lopes Lisboa", e um Manuel Lopes vindo do Porto, virava "Manuel Lopes Porto". Esta é a origem da maior parte das famílias que usam sobrenome Porto, Braga, Viana, Coimbra, Évora, Faro, Chaves, Lisboa, Guimarães, todos originalmente nomes de grandes cidades portuguesas, e conseqüentemente terra natal de muitos emigrantes. Eu mesmo tenho um ancestral de nome Manuel da Silva Jorge, que adotou o sobrenome "Jorge" por ter vindo da ilha de São Jorge, no arquipélago atlântico dos Açores.

Somente a partir de meados do século XIX é que os sobrenomes portugueses vão consolidando-se na forma tradicional sobrenome materno+paterno. O curioso é que os sobrenomes espanhóis padronizaram-se no formato inverso: paterno+materno.

Genealogia 4: Evolução dos sobrenomes portugueses (II)

Na coluna anterior referia-me aos nomes portugueses, que existiam na Idade Média na forma "nome+patronímico", ou seja, João filho de Simão = João Simões. Se este João tivesse um filho chamado, digamos, Diogo, este se chamaria Diogo Eanes, e se este por sua vez tivesse um filho Simão, seria Simão Dias.

Após o século X, com a consolidação dos reinos ibéricos, e conseqüentemente a divisão territorial em propriedades de "senhores feudais", estes passaram a ser considerados como "importantes", daí vão surgindo nomes familiares, verdadeiros sobrenomes como nós dissemos no Brasil (ou apelidos, como dizem os portugueses e espanhóis). Assim, se fulano era senhora da Quinta do Pinheiro, adotava o sobrenome Pinheiro, se outro era dono das terras de Sousa, adotava o sobrenome "de Sousa", e assim por diante. Desta forma nascem boa parte dos sobrenomes mais usados atualmente, como Sousa, Silva, Pereira, Moreira, Magalhães, Rocha, Medeiros, Moreira, Lisboa, Leão, Machado, etc, etc.
Mas isto não significa dizer que todas pessoas de sobrenome Machado sejam todas descendentes de um antepassado em comum Machado, senhor feudal. Estas famílias eram relativamente pequenas, e poucas, e a elas foram atribuídos brasões.

O que acontece é que progressivamente o "formato" de nome dos "nobres" foi influenciando os nomes dos "pobres". Se numa época inicial poderíamos identificar plenamente um rico por nome do tipo "João Pires da Silva" (i.e., João filho de Pedro da Família Silva), e um homem do povo por um nome do tipo "João Pires" (João filho de Pedro), uma séria de modificações vai alterar os usos.

Com o tempo, alcunhas (o que no Brasil chamamos de apelido) acabam virando sobrenomes, um João Pires "O Magro" pode acabar passando Magro para os filhos, e assim surge um novo sobrenome. Como as alcunhas existiam independentemente em pessoas diferentes, não significa que todos de sobrenome Magro teriam que descender de uma só pessoa, mas teriam múltiplas origens. Outras possibilidade era adotar o nome do lugar de onde veio, algo do tipo "João Pires de Lisboa", ou "João Pires de Coimbra". Assim também surgem novos sobrenomes.
Outra forma mais simples era apenas transformar o patronímico em sobrenome, "congelando-o". Um "João Pires" tendo um filho Estêvão, em vez de simplesmente batizá-lo "Estêvão Eanes", como seria o esperado em se tratando de patronímicos, chamava-o de "Estêvão Pires", e assim o Pires acaba por cristalizar-se e fixar-se como sobrenome. É justamente por este motivo que não existe uma única família Lopes, Simões, Dias, Fernandes, Gonçalves, Esteves, etc...
Importante salientar também que com o aumento da variedade de prenomes a disposição vai gerar após o século XII uma nova safra de patronímicos, sem sufixo algum. João filho de Francisco será apenas João Francisco, e não "João Francisques", uma Maria filha de Clemente será Maria Clemente. Para alguns prenomes o patronímico com sufixo vai conviver com o patronímico "puro". Assim por volta do século XIII, encontramos tanto a forma arcaica "Martim Eanes", como "Martim João", "José Antunes", como "José Antônio", "Felipe Marques", como "Felipe Marcos". Também ocorrerá no português escrito uma curiosa forma de fusão: Janeanes, em vez João Eanes, Pedrálvares em vez de Pedro Álvares, assim por diante. Tal grafia estranha esteve em uso até pelo menos o século XVI.
Também outro costume interessante que iria perdurar até meados do século XIX era a mudança de gênero no sobrenome: João Machado, mas Maria Machada; Felipe Coelho, mas Teresa Coelha; Luís Brandão, mas Luísa Brandoa.
Por volta do século XV, o sistema de patronímicos começa a se desestabilizar, e os patronímicos vão gradualmente sendo "congelados" na forma de patronímicos.
(Continua)

Genealogia 3: Evolução dos sobrenomes portugueses (I)

Ter um sobrenome não era necessário na antigüidade. Populações pequenas e esparsas, nenhuma escrita. Os nomes tinham significados plenamente reconhecíveis: "cavalo branco" (grego Leukippos) , "forte como urso" (inglês Bernhard), "segundo filho" (latim Secundus, Secundinus), etc. O que geralmente juntava-se ao nome era um patronímico, ou seja, um segundo nome que referia-se ao nome do pai. Algo do tipo "Ulisses filho de Laerte". Este padrão existe em todas as línguas da antiguidade, e sobrevive até mesmo em algumas línguas modernas:
- Magnus Eriksson (escandinavo) = Magnus filho de Erik
- Zeus Kronides (grego) = Zeus filho de Kronos
- Oleg Alexeievitch (russo) = Oleg filho de Alexei
- Taufik ibn Mussa (árabe) = Taufik filho de Mussa
- Arjuna Pandava (indiano) = Arjuna filho de Pandu

Outra de forma de distinguir-se a pessoa de um homônimo era usar uma alcunha, do tipo "o Gordo", "O Grande", "O Baixo", "O Branco", "O Coelho", "O Rato", "do Outeiro", "do Lago", etc.

Após a dissolução do Império Romano, a Península Ibérica foi ocupada pelos mouros. Estes povos islâmicos usavam patronímicos, do tipo Salim ibn Husain, Karim ibn Mussa, etc. Apesar da enorme influência árabe herdade pela língua portuguesa, tais nomes não deixaram vestígio nos nomes pessoais, com exceção do patronímico Viegas, que significa "filho de Egas", cuja forma denuncia uma origem árabe: ibn Egas > Ebenegas > Eveegas > Veegas > Viegas.

Os patronímicos mais comuns no português do início da Idade Média são aqueles com sufixo -es, dos quais boa parte chegou aos tempos modernos:
Rodrigues = filho de Rodrigo
Fernandes = filho de Fernando
Dias = filho de Diogo
Eanes/Enes/Anes = filho de João
Martins = filho de Martinho
Pires = filho de Pero (Pedro)
Gonçalves = filho de Gonçalo

Normalmente são vistos como de origem germânica, do tempo da ocupação visigoda: gótico Hrôthareiks (Rodrigo), genitivo Hrôthareikis ("de Rodrigo"), donde evoluíram para um latim vulgar Rodericus, sobrenome Roderiquis. Outro bom exemplo é Farthinanths (Fernando), genitivo Farthinanthiz (de Fernando), origem da dupla Fernando/Fernandes.

Outros no entanto, vêem estes sobrenome como de origem latina, de um sufixo genitivo -ici, *Ferdinandus, Ferdinandicus > Ferdinandici. Com certeza há alguns sobrenomes com a marca do genitivo puro latim, como Didacus (Diogo), genitivo Didaci (de Diogo, isto é, Diaz>Dias).

Qualquer que tenha sido sua origem, o fato é que na Idade Média estes patronímicos eram de uso comum em todas as classes sociais: Trastamiro Fernandes, Toda Ermiges, João Ramires, Fernando Martins, Chamoa Vasques são exemplos de nomes usados nesta época.

Como surgiram os sobrenomes que nós conhecemos atualmente?
(A Parte II continua em Genealogia 4)