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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Mitologia 22: Hekate


Apenas de seu vasto poder, a deusa Hekatê não era incluída no primeiro escalão do Olimpo. Seu nome significaria “a distante”, o que também era um epíteto da deusa Artemis. Entretanto, o mais provável é que seu nome não seja de origem grega, e existe uma possível ligação com a egípcia Heqet, uma deusa-rã que tutelava a gravidez e o nascimento.
Na genealogia de Hesíodo ela é a filha dos titãs de segunda geração Persês (filho de Kreios e Eurybia) e Asteria (filha de Koios e Phoibê). Hekatê, seria assim, prima-irmã dos gêmeos Apolo e Artêmis. Uma tradição local da Tessália a considera fruto da união de Zeus e Phêraia, que era filha de Aiolos, o epônimo dos eólios. Algumas versões paralelas a descrevem como filha de Zeus e Hera e mensageira dos deuses, o que parece identificá-la com Iris, enquanto outras consideram-na filha da Noite. A associação com tochas e sua função de mensageira remetem a uma comparação sugestiva com a deusa do sol Shapash, mencionada nas tabuletas de Ras Shamra como a mensageira do deus Ba'al na Mitologia Ugarítica (uma versão mais primitiva da religião fenícia). Shapash carrega tochas ardentes simbolizando seu papel de deusa solar, e a este grupo de deusas eu incluiria Hestia, deusa do fogo doméstico, irmã de Zeus, mas com um papel relativamente pequeno e secundário nos mitos gregos. Talvez Hestia, Hekate e Iris fossem três aspectos diferentes de uma mesma deusa original, que com o tempo acabaram virando personificações independentes.
Os hinos religiosos dos seguidores de Orpheus ressaltam seus aspectos benevolentes e protetores. No Hino Órfico no.1 ela é chamada pelo seu epíteto Prothyraia “a deusa das portas”, louvada como tutora das mulheres, velando pelos casamentos e nascimentos, e guardiã das crianças. Os orfistas a identificavam com Artemis e Eileithyia.
Hesíodo lhe consagra um hino, pois a família deste era devota da tripla deusa. No hino, a deusa é invocada como rainha do céu, da terra e do inferno. Aconselha o reis, acompanha as assembléias, traz a vitória aos guerreiros, traz fartura (mas também escassez, se insatisfeita) ao camponês, ao pastor e pescador, protege as crianças. A deusa tripla IE. Outros povos indo-europeus também veneravam uma deusa tripla com poderes difundidos pelas três funções da sociedade: Justiça/Magia, Guerra e Produção.
No episódio do rapto de Persephonê, Hekatê aparece como uma das companheiras e ajudantes de Dêmêtêr em sua busca. Graças à sua ajuda, Hekatê foi consagrada como ministra e companheira de Perséfone.
O decorrer do tempo acabou transformando-a em deusa das bruxas, andarilha errante dos trívios (encruzilhadas de três caminhos), acompanhada por um séquito de fantasmas e cães ululantes. Na sua forma monstruosa era representada com três cabeças animais, fosse de égua, cadela e porca ou de vaca, leoa e cadela. Carregava em suas mãos tochas ardentes, mas em suas estátuas triplas também víam-se espadas, chicotes e chaves.
Brimô, a rugidora noturna, era uma deusa de características lunares cultuada nos Mistérios de Elêusis. A ela estava associada um deus-menino, Brimos. Muitos mitógrafos preferem analisá-la apenas como outro nome para Dêmêtêr ou Persephonê, mas a identificação mais comum é certamente com Hekatê.
Daeira é outra das muitas deusas de tradições locais nas quais podemos ver traços de Hécate. Conta-se que teria sido amada por Hermês, gerando Eleusis, o herói da cidade de mesmo nome.
Krataia ou Kratais é nome da deusa a quem Homero na Odisséia considerava como esposa do deus marinho Phorkys e mãe da monstruosa Skylla e provavelmente da ninfa Thoosa (mãe do cíclope Polyphêmos). Muitos vêem em Kratais outro sinônimo de Hekatê.
Arte: Fred Carvalho (2000), esboço, alterado no photoshop

Mitologia 21: Eos


Êôs (Grego Eólico Auôs) era a radiosa e bela deusa da Aurora e da Manhã, filha dos titãs Hyperion e Theia, e irmã de Hêlios, o Sol, e Selêne, a Lua. Seu nome remonta ao indo-europeu *H2euso:s "aurora, alvorada", cognata da romana Aurora (de *Auso:sa), do inglês east “leste”, Easter “deusa da primavera” (do germânico *Austra- < *Aus-ra-) e da indiana Ushâs. Como sua análoga indiana, com qual pode-se traçar muitos paralelos consistentes, era uma bela deusa jovem famosa pelos muitos relacionamentos amorosos como mortais.
Hesíodo a faz esposa do titã Astraios, com quem gera a Êôsphoros, a Estrela-d’Alva – também chamado de Phosphoros – e os quatro ventos, o glacial Boreas (Norte), o úmido Nôtos (Sul), o luminoso Euros (Leste) e o agradável Zephyros (Oeste). Entre os jovens rapazes que foram suas “vítimas” estavam o príncipe troiano Tithônos, de quem gerou os guerreiros Memnon e Hêmation; Kleitos, neto de Melampous, de quem gerou Koiranos; e finalmente o ateniense Kephalos, por quem a deusa matutina apaixonou-se perdidamente e gerou na Síria o radiante Phaêthon (uma versão alternativa à tradição que faz dele um filho do Sol).

Arte: Vítor Santos (2005)

terça-feira, 3 de junho de 2008

Mitologia 20: Artemis


Artemis, a donzela caçadora do arco de ouro, Senhora dos Animais Selvagens, era a irmã gêmea de Apollon. Seu nome já aparece nas tabuletas micênicas de Creta. Tem como animais simbólicos a ursa, o javali, a corça e a codorniz. Ao presenciar os sofrimentos de sua mãe Leto, prometeu permanecer sempre virgem. Artemis era vista como deusa da caça, mas também como provocadora de pragas e pestes. A associação com a Lua só se dará gradualmente numa fase mais tardia, quando acabará substituindo a deusa Selene, numa forma análoga à identificação de seu irmão Apolo com o Sol. Os romanos a assimilaram à sua deusa Diana.

Percorria as florestas rodeada de um cortejo de ninfas caçadoras, das quais exigia também a virgindade. Puniu impiedosamente as que violaram seu voto. Kallisto foi transformada num urso, por ter cedido às seduções de Zeus, enquanto Atalanta virou uma leoa por ter se unido ao herói Melanios. Também era implacável com aqueles que ousavam vê-la banhando-se. Transformou o jovem caçador Aktaion num cervo, que acabou despedaçado pelos seus próprios cães de caça. Órion, um gigante caçador da Beócia que se apaixonara por ela, morreu picado por um escorpião, embora outros afirmem que morreu com a cabeça crivada de flechas. Eneu, que esqueceu de sacrificar em seu nome, teve seu reino assolado por uma javali monstruoso.

Numa versão da lenda dos Alóades, é a responsável pela morte destes terríveis gigantes. Os Alóades eram dois gêmeos gigantescos, Otos e Ephialtes, filhos de Poseidon com a humana Iphimedia. Cresciam rapidamente e com nove anos já tinham dezessete metros de altura. Disse um oráculo que não poderiam ser mortos pelos deuses nem pelos homens. Empilharam montanhas para escalar o Olimpo, e desafiaram o deuses. Após muitos problemas para os deuses, Artêmis conseguiu sua morte através de um estratagema. Transformando-se numa corça, se lançou entre eles. Na ânsia de matar o animal, os Alóades atingiram um ao outro e morreram.
Arte: Fred Carvalho (1999)

Mitologia 19: Apollon


Uma das divindades mais complexas da mitologia grega, Apollon (forma latina Apollo), possui tantos aspectos diferentes, que há um consenso de que seu culto surgiu a partir da progressiva fusão de muitas divindades mais antigas.

É importante salientar que sua imagem de Deus-Sol é um conceito muito tardio que só se impôs a partir da época greco-romana. Na sua qualidade “solar” será chamado de Phoibos, “o brilhante”. O "autêntico" Apollon era um deus médico, responsável tanto pela cura como pelas doenças, um temido arqueiro divino, um deus dos pastores, e um fantástico músico. Entre os diversos animais consagrados estavam o cisne, o corvo, o carneiro, o javali, a serpente, o rato, o abutre, o falcão e a cigarra. Suas árvores sagradas eram o loureiro, a palmeira e o choupo branco.

Sua mãe era a deusa Leto, filha dos titãs Koios e Phoibe. Amada por Zeus, estava grávida de gêmeos, mas Hera, ciumenta, ordenou que nenhuma terra a recebesse. Leto vagou pelo mundo, perseguida por um terrível monstro, a serpente Python. Chegou então à ilha flutuante de Delos, que por não estar ligada à Terra, serviu de pousada. Leto, com grande esforço, deu a luz a Artemis primeiro, e sua própria filha já lhe serviu de parteira, ajudando-a no nascimento de Apollon. Após isso, Delos transformou-se numa ilha comum. O termo Python, mais tarde, foi usado pelos zoólogos para designar um gênero de cobra de grande porte.

Zeus presenteou seu filho com uma carruagem puxada por cisnes e um arco divino de prata. De posse deste arco, Apollon se vingou do monstro Python e matou-o em Delfos, passando a ser o dono do oráculo local. Depois, ele e sua irmã mataram o gigante Tityos, que havia tentado violentar sua mãe. Seu corpo gigantesco, que media trezentos metros, jaz agora no Tártaro, onde dois abutres roem-lhe eternamente o fígado.

A Apollon não era atribuída nenhuma esposa principal, mas de seus amores com ninfas e humanas nasceram muitos semideuses. Amou Koronis "gralha", uma filha do rei dos lápitas (povos bárbaros do norte da Grécia). Enfurecido por esta tê-lo traído com um mortal, matou-a, salvando entretanto seu filho, retirado do ventre materno. Este filho foi Asklepios,que tornou-se um grande médico tão poderoso que chegou inclusive a ressuscitar os mortos. Hades, preocupado com a perda de seus súditos, queixou-se a Zeus, que então teria fulminado Asklepios. Apollon teria se vingado matando os Kyklopes.

Outro filho seu foi Orpheus, nascido de seus amores com a musa Kleio, embora as versões mais aceitas o façam filho do deus-rio Oiagros. A música de Orpheus era tão magicamente maravilhosa, que fazia os animais e até as pedras dançarem. Outro filho de Apollon foi Aristaios, uma divindade pastoral secundária, patrono da apicultura. Sua mãe era a ninfa guerreira Kyrene, filha do Rio Peneios.

O culto de Apollon difundiu-se entre os etruscos, que o chamaram de Aplu, e graças a eles o culto chegou a Roma, onde seu nome passou a ser Apollo (genitivo Apollinis, donde o adjetivo "apolíneo").
Os traços de deus-arqueiro vingador, associação com medicina e pestilência, residência no extremo norte, encontram uma correspondência quase exata no indiano Rudra, divindade citada nos Vedas, que servirá como uma espécie de "protótipo" da poderosa divindade Shiva.

Arte: Fred Carvalho (1999)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Mitologia 17: Hermes


Filiação: Zeus e Maia
Hermes (Hermês) (também chamado de Hermeâs, Hermâs ou Hermân), era o arauto dos deuses. Entre suas outras funções estava a de guiar as almas dos que morriam, e de assegurar a fecundidade dos rebanhos. Era o padroeiro dos viajantes, dos comerciantes e dos ladrões. Seu símbolo primitivo era o hermaion, uma coluna de pedra que marcava os caminhos. Os carneiros eram seus animais prediletos. Sua astúcia e seus talentos no roubo e na trapaça eram insuperáveis. O aspecto de deus trapaceiro, aliado à sua função de mensageiro dos deuses sugere um possível papel de deus do fogo numa fase mais arcaica; dizia-se que ensinara aos deuses a arte de fazer fogo. Este primitivo deus do fogo acabou absorvendo as qualidades de um deus-pastor e talvez de um deus lunar da sabedoria.
Hermes era filho de Zeus e de Maia, uma das Plêiades, deusas estelares filhas de Atlas. Maia se escondeu no monte Kyllênê, na Arcádia, e deu à luz durante a noite, numa gruta. Mal nasceu, Hermes deixou seu berço andando e encontrou um casco de tartaruga. Com ela fez a primeira lira, e cantou a história de seu próprio nascimento. Depois dirigiu-se aos rebanhos de Apollon. Roubando cinquenta reses, amarrou em seus cascos galhos para disfarçar as pegadas. Sacrificou alguns bois em nome dos Doze Deuses, e escondeu o resto numa caverna. Então, transformou-se em névoa e voltou para seu berço. Quando Apollon acusou-o do roubo, Maia defendeu-se, alegando que uma criança de berço não poderia fazer isto. Mas o embuste acabou descoberto, e Hermês só foi perdoado ao dar de presente a lira que havia feito para Apolo, que gostou tanto que em troca lhe ofertou seu cajado de pastor e um bastão de ouro. Perguntado por que fizera um sacrifício para doze deuses, já que na época só haviam onze, ele alegou que se incluíra como o décimo-segundo. Zeus riu muito da esperteza de seu filho e aceitou-o no Olympos.
Como seu pai, os filhos de Hermês eram astutos e trapaceiros. Seu filho Autolykos era considerado o maior ladrão de toda a Grécia, e foi o avô materno de Odysseus (Oulyksês), outro herói renomado por sua astúcia. Erytos foi o arauto dos Argonautas. Dos amores de Hermês com uma ninfa (dentre as muitas versões diferentes) gerou o deus Pân, também associado aos rebanhos e à música. Seus filhos com Aphroditê foram Hermaphroditos e Êrôs. Com outra ninfa gerou Seilên, um sátiro feio e gordo, companheiro de Dionysos em suas viagens.
Arte: Fred Carvalho (1999)

Mitologia 16: Hera


Hera (Hêra), chamada Hêrê pelos jônios, era a esposa “legítima” de Zeus, embora Hesíodo a considerasse como sua sétima esposa. Filha de Kronos e Rheia, tinha como animais consagrados a vaca, o cuco e o pavão. Era a protetora dos casamentos e dos nascimentos. Sua origem deve remontar aos tempos anteriores à chegada dos gregos, quando era uma grande deusa-mãe de características tanto celestes como telúricas.

A grande deusa celeste era uma esposa ciumenta, e perseguia muitos dos filhos bastardos de Zeus. É a grande vilã nas lendas de Herácles, Apolo, Dionísio e Io. Já na história dos Argonautas, é ela a protetora de Jasão, o líder da expedição. Hera era muito cultuada na cidade de Argos, onde era conhecida como Hera Boópis, “a de olhos de vaca”. Ganhou a soberania desta cidade numa disputa com Possídon.

Zeus, seu irmão gêmeo, utilizou um estratagema mágico para seduzí-la, transformando-se num cuco, e aninhando-se ao peito dela. A sua união teria se dado no Jardim das Hespérides. Deste casamento nasceram Ares (o deus da guerra), Ilícia (a deusa do nascimento) e Hebe (a deusa da juventude e copeira dos deuses). Por vingança teria sozinha gerado Hefesto. Suas filhas eram divindades secundárias e não faziam parte do Panteão Clássico. Talvez num período mais arcaico tenham feito parte do círculo principal. Hebe tornou-se a esposa de Héracles quando este foi divinizado.

Embora a versão “canônica” a faça ter sido engolida pelo pai como seus outros irmãos, algumas lendas divergentes a consideravam salva pela mãe, como seu irmão Zeus. Na Arcádia diziam que tinha sido criada pelo herói Têmeno. Em Argos diziam que suas amas tinham sido as três ninfas filhas do deus-rio Astérion. Outras histórias a fazem ter sido criada e protegida pelo casal Oceano e Tétis

Dentre as inúmeras lendas a seu respeito, poderíamos destacar uma, por ser proveniente de Argos, possivelmente a cidade mais fiel a ela. Um princesa argiva, Io, despertou o amor de Zeus. Para enganar sua ciumenta esposa, Zeus transformou a bela Io numa vaca branca. Hera então exigiu que a vaca lhe fosse ofertada, e confiou-a à guarda do gigante Argos. Argos possuía cem olhos, e enquanto cinquenta vigiavam, cinquenta dormiam. Hermes adormeceu o guardião, decapitou-o e libertou Io. Hera, como recompensa a seu fiel servo, colocou seus cem olhos na cauda do pavão. Sua associação a tal ave demonstra claramente uma influência tardia, visto que os pavões só existem na Índia, que só passou a ser conhecida durante as conquistas de Alexandre, no século IV a.C.
Arte: Fred Carvalho (1999)

Mitologia 15: Poseidon


Poseidon (Possídon) era irmão de Zeus. Seu nome variava conforme os dialetos: Potidân (dórios), Posoidân (jônios), Pohoidân (espartanos) ou Poseidâon (micênios). Considerado como o soberano dos Mares, parece ter surgido da fusão de duas divindades diferentes trazidas pelos gregos: uma ligada às águas subterrâneas, fontes e poços, e outra, de afinidades equinas, controlando os ventos, às quais se mesclaram qualidades de divindades pré-helênicas, possivelmente consortes masculinos da Grande Deusa. Tinha como animais consagrados o touro, o carneiro e o cavalo, especialmente este último, que teria sido um presente seu aos gregos. Há inclusive uma variante na qual não teria sido engolido por seu pai, mas salvo na forma de potro, e criado na Ilha de Rodes. Tinha como arma o tridente, que recebera dos Kyklopes. Embora tradicionalmente representado como um deus de barbas brancas, Hesíodo o chama de “crina-preta”.

Na partilha do governo universal com seus irmãos recebeu o domínio sobre os oceanos, mas mantendo suas características subterrâneas como criador de terremotos (Hesíodo o chama de Treme-Terra). Mas, querendo ter possessões em terra, disputou a soberania de algumas cidades, saindo sempre derrotado. Perdeu Atenas e Trezena para Athêna, Corinto para o Sol, Argos para Hêra, a ilha de Egina para Zeus e a de Naxos para Dionysos. Possuía um imenso palácio submarino, feito de ouro, com imensas estrebarias, onde viviam seus cavalos marinhos, brancos, com crinas douradas e cascos de bronze.

Possídon tinha como esposa a nereida Amphitritê, com a qual gerou quatro filhos : Bentesikymê, Rhodê, Kymopoleia e Triton.

Muitos outros filhos eram atribuídos a Poseidon, de sua união com outras deusas e muitas mortais. Alguns destes filhos eram heróis ancestrais de povos e reis lendários, enquanto outros eram terríveis gigantes. Entre eles se destacam Bellerophontês, o matador da Khimaira; Thêseus, herói de Atenas; Aiolos, rei dos ventos; os Alôadai, gigantes gêmeos que desafiaram os deuses; e os Moliones, gêmeos inimigos de Hêraklês. Assumindo a forma de cavalo, seu animal favorito, gerou os cavalos divinos Areion e Pêgasos, e presenteou os cavalos inteligentes Xanthos e Balios (filhos de uma harpyia com o Vento Oeste) ao herói Akhileus, além de Skyphios, o primeiro cavalo, sua dádiva aos atenienses. Sua ligação com outros animais manifesta-se em muitos mitos: presenteou um magnífico touro marinho a Minôs, rei de Creta; na forma de carneiro, uniu-se à princesa macedônia Theophanê (transformada em ovelha) e gerou o Velocino de Ouro, um carneiro dourado, que podia voar.

Arte: Fred Carvalho (1999)

domingo, 25 de maio de 2008

Mitologia 14: Hades


Hades, o tenebroso rei das regiões infernais, era uma divindade sombria, temida e odiada pelos mortais. Irmão de Zeus, recebeu como quinhão o Tártaro, a trevosa região embaixo da terra. Também lhe chamavam Ais, Aidoneus e Plouton. Acredita-se que Ais originalmente designasse a terra dos mortos, e sua etimologia é o indo-europeu *sm-wid- "lugar de encontro, reunião". Os Cíclopes (Kyklopes) fizeram para ele um capacete com o poder de torná-lo invisível, e assim poder vigiar melhor os mortais. Como senhor das profundezas da terra, lhe era atribuído o poder sobre as sementes e as raízes, ou seja, a riqueza agrícola. Daí vinha o nome eufemístico com que era chamado, Plouton, o “Rico”. Como a figura de um temido e inflexível rei do mundo dos mortos demonstra claramente influências asiáticas, talvez mesopotâmicas, é possível que sua forma original fosse a de um mero deus protetor dos grãos. É possível que os gregos tivessem trazido consigo o culto indo-europeu de um primitivo Rei dos Mortos, que fora também o primeiro homem, e portanto, o primeiro morto (há muitos paralelos com lendas indianas, iranianas e romanas). Vestígios deste “rei dos ancestrais mortos” aparecem na do mundo, e com sua tristeza, toda a natureza começou a minguar. Core, por já ter comido uma semente de romã no reino de Hades, não pôde mais deixar o Inferno. Como Demeter ameaçava fazer a natureza perder sua força, Zeus obteve um acordo conciliatório: Core passaria metade do ano com sua mãe na terra, e a outra metade com seu marido no Tártaro, tornando-se conhecida como Perséfone.
Segundo Hesíodo, uma bigorna jogada do Céu demora dez dias para atingir o chão, e precisaria de mais dez dias para chegar ao fundo do Tartaros. Lá estavam as almas dos mortos, que vagavam como fantasmas incorpóreos, se alimentando do sangue das vítimfigura cretense de Minos, considerado como juiz dos infernos. Sob a influência das religiões pré-helênicas, acabou ofuscado por Hades.
Hades aparece muito pouco na mitologia, e tem pouquíssimos mitos próprios. Destes, o mais importante é o rapto de Perséfone. Desejoso de ter uma rainha , Hades conseguiu com o auxílio de seu irmão Zeus, raptar Kore, sua sobrinha, filha do senhor do Olympos com Demeter. Esta, desesperada com o sumiço de sua filha, procurou-a por todas as partesas que seus parentes sacrificavam em seu nome.
Era no Tártaro que vivia Styx, ninfa filha do Okeanos que personificava o rio infernal do próprio nome. Era em nome de suas águas que os deuses deviam jurar, e por isso era muito temida. Se um deus cometesse perjúrio, ficava impedido de se alimentar de néctar e ambrosia. Perdia as forças lentamente e teria de se afastar dos outros deuses durante dez anos.

Arte: Fred Carvalho (1999)

sábado, 17 de maio de 2008

Mitologia 13: Zeus


Zeus, a divindade suprema dos gregos, em todas as cidades e regiões, era o grande e onipotente senhor do Olympos. Parece que os gregos primitivos teriam fundido pelo menos duas divindades no decorrer do tempo. Uma, o grande e velho Deus-Céu, pai dos deuses, chamado Zeus Patêr. Outra, o mais forte de seus filhos, o bravo e belicoso Deus da Tempestade, senhor dos raios, trovões e relâmpagos, cujo antigo nome ignoramos. Aos cultos gregos se misturaram crenças mediterrâneas em jovens deuses consortes da Grande Mãe. Em Creta chamavam-no de Zên ou Zân, e veneravam-no na forma de uma criança divina, que renascia constantemente numa gruta.
Senhor do Céu, do Dia, da Luz, o poderoso Zeus era visto como vencedor das forças tenebrosas, os monstros e gigantes. No decorrer da época clássica, vai ganhando características cada vez mais onipotentes, o que o farão confundir-se com a noção de Destino. Mas seu aspecto principal é a associação com os fenômenos atmosféricos, na sua qualidade de responsável pelas chuvas, ventos, raios e neve. Seus animais sagrados principais são a águia e a cabra, embora em suas aventuras tenha apresentado muitas metamorfoses, dentre as quais touro, cavalo, urso, serpente, cisne e cuco.
Quando Zeus venceu seu pai Kronos, dividiu o mundo com seus irmãos. A ele caberia o Monte Olimpo e o Céu; a Poseidon, o Mar; e com Hâdês ficaria o Inferno, o sombrio reino subterrâneo. A Terra era comum a todos. Zeus possuía muitas divindades menores auxiliando-os. Participavam de sua corte os filhos do titã Pallas e da ninfa Styx: Biê (a Violência), Kratos (o Poder), Nikê ( a Vitória) e Zêlos.
Esposo de sua irmã gêmea Hêra, que seria a sua rainha, teve no entanto uma infinidade de aventuras amorosas com outras deusas e muitas mortais. Segundo Hesíodo, antes de tornar-se esposo de Hera, amou seis outras grandes deusas. Com a oceânide Mêtis, gerou Athênaia; com a titã Themis, as Horai; com a oceânide Eurynomê, as Kharites; com sua irmã Dêmêtêr, Persephonê; com a titã Mnemosynê, as Mousai; de Lêtô, filha dos Titãs Koios e Phoibê, gerou os gêmeos Apollon e Artemis.
Depois gerou com Maia, filha de Atlas, o deus Hermês; com a ninfa Kallistô, gerou Arkas, antepassado dos árcades; com Alkmena, gerou Hêraklês, o mais forte dos mortais; com Semelê, gerou Dionysos; com Lêda, gerou os gêmeos celestes, Kastor e Polydeukes, além de Helene de Tróia; com Danae, gerou Perseus; com Europa gerou Minos e seus irmãos. Estes são apenas alguns de seus filhos, já que um grande número de povos e cidades se diziam descendentes de filhos de Zeus.
Da união com sua esposa “legítima” nasceram Ares, Hebe e Eileithyia.O nome Zeus remonta ao indo-europeu *Dyeus, "céu claro, céu luminoso", cognato do latim Jupiter (< Jovis Pater), do sânscrito Dyaus Pitar, e do germânico *Tiuz. O nome se liga à raiz *deiH- "brilhar, fonte igualmente de *deiwos "deus" (Latim deus, Sânscrito deva, Celta devos), e de *diwe- "dia" (Latim dies).


Arte: Fred Carvalho (1999)

Mitologia 12: Atená


Athenaia (outras grafias Athena, Athenais, Athanaia), a deusa guerreira, era a filha predileta de Zeus. Era tradicionalmente cultuada como virgem, embora alguns mitos isolados desmintam isso. Pelo menos na Atenas pré-helênica deve ter sido um aspecto da Grande Mãe. Seus animais prediletos eram a coruja, a serpente, a gaivota e a cabra. Sua árvore sagrada é a oliveira. Era protetora do artesanato, das ciências, da medicina, dos ofícios femininos e das artes guerreiras. Estava sempre armada com sua lança, e com um escudo revestido de pele de cabra.
O nascimento de Atenas se dá a partir de eventos iniciados ainda quando Zeus era jovem. Sua primeira esposa Metis, filha do Okeanos, era a sabedoria personificada. Como Ouranos e Gaia lhe disseram que seu filho com Metis acabaria por destroná-lo, Zeus engoliu Metis, e então gerou uma filha. Após grandes dores de cabeça, o rei dos deuses pediu para que Prometeu abrisse sua cabeça com um machado. De sua cabeça então nasceu Atena, soltando um grito de guerra. Por ter nascido da cabeça de Zeus, Athenaia incorporou sua sabedoria. Hera, furiosa, vingativamente irá gerar Hephaistos sozinha. Outras variantes importantes a fazem filha de Poseidon, do gigante Pallas, do cíclope Brontes, ou do deus Triton. A última versão explicaria o seu nascimento na Líbia, às margens do Lago Tritônio, e seu epíteto de Tritogeneia. Essa lenda origina-se do fato dos gregos terem percebido a grande semelhança entre o culto de Atena e o da deusa Neith, virgem guerreira cultuada na Líbia e no norte do Egito, em Saís.
Quando o ameaçador Typhon apareceu para enfrentar os deuses, todos eles fugiram amedrontados para o Egito, onde assumiram formas animais. Apenas a corajosa Atena permaneceu ao lado de seu pai. Uma lenda com certeza concebida para explicar o culto zoomórfico aos deuses egípcios. Também tomou parte da luta contra os Gigantes, quando matou Palante ( que numa variante era seu pai), um gigante com corpo de bode, e com sua pele fez a Égide, uma túnica de pele de cabra, invulnerável. De pele de cabra também era revestido seu escudo, que tinha fixo no centro a cabeça da górgona Medusa.


Ilustração: Fred Carvalho

domingo, 23 de julho de 2006

3. As Horas (Hôrai)

Arte: Paula Dunguel

As HORAS
Segundo a Teogonia de Hesíodo, as filhas mais velhas de Zeus nasceram de seu casamento com sua segunda esposa Themis. Eram elas as três deusas Hôrai ( singular Hôra). Em grego antigo hora significava “estação”, um nome derivado do indo-europeu *ye:r- / *yo:r-, cognato do inglês year e alemão jahr “ano”, russo jara “primavera” e persa antigo ya:re “ano” e ya:irya “colheita”. O nome das três Horas variava segundo as fontes, pois Hesíodo fala de Eunomia “Ordem”, Dikê “Justiça” e Eirênê “Paz”, mas em Atenas eram chamadas de Auxô “Crescimento”, Thallô “Floração” e Karpô “Fruto”.
Em épocas mais tardias, Hora mudou seu significado, de “estação” para o de “divisão do dia”, a partir o significado atual de “hora”, que chegou até as línguas modernas européias.
As Hôrai eram concebidas como divindades do ciclo da vegetação, embora os nomes hesiódicos às associem à ordem e estabilidade social, o que é coerente com a função de sua mãe, Themis, a Justiça Divina. Suas funções no Olimpo eram a de vigiar as portas do palácio celeste, e desatrelar os carros de Hêra e do Sol. Junto com as Kharites figuravam no cortejo habitual de Dionysos e de Aphroditê. Teriam sido elas que vestiram e enfeitaram a Deusa do Amor quando esta pisou o solo do Chipre. Outras lendas as consideram como as babás da pequena Hêra. Estas duas últimas histórias são inconsistentes com a coerência cronológica da Teogonia de Hesíodo, segundo a qual Aphroditê surgiu da castração de Urano, portanto antes de Zeus nascer, não podendo elas serem mais velhas que Hêra.
Na mitologia grega é um tema comum o de trindades femininas, um reflexo da poderosa Tripla Deusa, a Grande Mãe dos cultos pré-históricos de fertilidade. Assim como as Hôrai, temos as Kharites, as Thriai, as Mousai, as Hesperides, as Moirai, as Gorgones e muitas outras. Talvez as Hôrai não passassem de um aspecto tríplice e juvenil de sua própria mãe Themis.