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domingo, 9 de agosto de 2009

Mitologia 31: Persephone

A deusa Persephone (variantes Phersep(h)one, Periphona, Pherephoneia, P(h)ersephassa e Perse-phatta) formava um par indissolúvel com sua mãe Demeter, da qual muitos a consideram um alter ego mais jovem. Embora seja uma versão muito bem consolidada a de que seja filha de Zeus e Deméter, aparecendo assim tanto em Homero como em Hesíodo, existiam algumas versões alternativas. Apolodoro a considera filha de Zeus e da deusa infernal Estige (ver Estige), e uma citação enigmática nos Hinos Órficos a faz filha de Zeus e de uma ninfa subterrânea: “ Eu invoco a ninfa Melinoe, subterrânea, de vestido cor de açafrão, que gerou perto das fontes do Kokytos a venerável Persephone, do leito de Zeus Crônion (...)”. Esta Melinoe é descrita como responsável por aparições fantasmagóricas, o que nos faz pensar tanto na espectral Hekate, como na colérica Demeter-Erinys ou na própria Styx.
A jovem Perséfone, então chamada simplesmente de Kora (Kore) “Menina”, brincava com suas amigas ninfas apanhando flores, rosas, açafrões, íris, jacintos e violetas nos aprazíveis Campos Niseus. Alguns dizem que as ninfas eram filhas do Oceano, outros que eles eram as Kharites, as Horai e as Moirai. Seu tio Hades, ansioso por uma esposa, já a cobiçava, e por meio de um estratagema de Gaia fez brotar um brilhante narciso. Maravilhada com a beleza e a fragrância, Kora se abaixou para colher a flor, quando um abismo se abriu e dele emergiu o sinistro Hades, em seu veloz carro puxado por cavalos negros do Erebos. Os gritos de Kora ecoaram pelo mundo, sendo ouvidos apenas por sua angustiada mãe Demeter, pela deusa Hekate em sua caverna e pelo grande Helios, o deus do Sol, aquele que tudo ouve e tudo vê.
Demeter vagou desesperadamente sem direção, carregando com duas tochas ardentes até que a ela se uniu a noturna Hekate. Juntas, foram falar com Helios, que com muito pesar lhes contou a verdade. A juvenil Kora havia sido raptada pelo rei dos antros subterrâneos. Em sua busca agoniante, Demeter já deixara de comer ou beber, e furiosa com seu irmão-esposo Zeus, que consentira com o rapto de sua filha, abandonou o Monte Olympos. Passou a viver entre os homens, incógnita, e durante este período ensinou seus mistérios a muitos reis e realizou muitos prodígios.
Vingativa, Deméter desafiou os deuses, prometendo nunca mais por os pés no Olimpo, e proibindo a terra de dar seus frutos. Um período de seca e fome terríveis abalou os homens. Sem ter o que comer ou plantar, os humanos pararam de oferecer sacrifícios aos olimpianos. Um por um, os deuses tentaram dissuadí-la de sua raiva, mas permaneceu inflexível.
Zeus por fim decidiu intervir e ordenou a seu irmão Hades que permitisse a volta de Kora à sua mãe. Hades, fingindo aceitar, concordou, mas antes através de uma artimanha conseguiu com que Kora comesse um grão de romã. Tendo feito uma refeição no Inferno, Kora não poderia mais deixar seu esposo. A partir deste instante, a jovem deusa passa dois terços do ano com sua mãe Demeter no Olympos, e o terço restante com seu esposo Hades. Entronizada no Tartaros, passou então a ser Persephone, a Rainha dos Mortos. Ao casal Hades e Persephone as tradições mais universais não atribuem nenhum filho, embora alguns mitógrafos falem de lendas periféricas segundo as quais as Erinyes seriam filhas do casal, assim como Artemis, no seu aspecto de Artemis Khthonia a “terrestre”.
Os mitos do rapto de Persephone encerram sem dúvida temas folclóricos muito comuns em vários povos. O mito da busca por uma deusa ou deus que acaba convertendo-se numa divindade da morte encontra-se esboçada em outras lendas gregas, como a de Orpheus e Eurydike, assim como em lendas egípcias (Ísis e Osíris; cólera de Sakhmet), japonesas (Izanagi e Izanami), suméria (Inana e Dumuzi) e hebraicas (Lilith; a mulher de Ló). A tradição do “Grande Inverno”, provocado pela cólera e fuga de uma divindade da vegetação também é outro tema recorrente entre as várias mitologias, por exemplo entre os hititas (desaparecimento de Telepinush) e os escandinavos (morte de Balder). Mitos assim devem ter raízes profundas, remontando a tempos neolíticos.
Em outras lendas o amante de Persephone não é Hades, mas o próprio Zeus em sua forma ctônia, transmutado em forma de serpente. Tais aparentes contradições parecem provar na verdade o número de tradições independentes que acabaram amalgamadas de forma imperfeita nos mitos de Perséfone. Também não podemos nos esquecer que um dos epítetos de Hades era Zeus Katakhthonios, o “Zeus Subterrâneo”, daí a ligação. O filho de Zeus e Perséfone seria Iakkhos (quase uma duplicata de Dionysos, uma criança divina venerada nos Mistérios) ou Zagreus o “Grande Caçador”.
A história de Zagreus, que era corrente principalmente nas tradições órficas, o considera uma espécie de “primeiro” Dionysos. Zeus o teria gerado em Persephone, quando esta estava escondida numa caverna siciliana por sua mãe Deméter. A criança, dotada de chifres, estava destinada a se tornar o herdeiro e sucessor de Zeus. Mas os Titãs, criaturas nascidas da Terra, não queriam que tal fato ocorresse. Com o rosto coberto de cal ( uma curiosa lenda baseada num falsa relação etimológica entre titan "titã" e titanos “cal, mármore”), os titãs atraíram a criança com brinquedos e o mataram, esquartejando-o e fervendo- num caldeirão. Zeus apareceu então e furioso fulminou os titãs. A continuação da história então prossegue com muitos finais divergentes. Dizem uns que das cinzas dos corpos dos titãs teriam sido feitos os seres humanos. Outros dizem que Zeus e os deuses reconstituíram o corpo a vítima. Outras lendas, possivelmente para se conciliar com as lendas tebanas de Dionysos, dizem que Zeus salvou apenas o coração de Zagreus. O deus então fez com que sua amada Semele o comesse, e assim ela depois gerou o “segundo” Dionysos.
Kora, "menina", feminino de Kouros "menino", deriva de *K^orwa, da raiz indo-européia *k^erH- "crescer".

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