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sábado, 29 de novembro de 2008

Mitologia 23: As Genealogias de Argos (parte 1)


Desde que eu comecei a me interessar pelo estudo da Mitologia Grega, percebi como as genealogias dos deuses e heróis da Grécia eram cheias de dubiedades e incoerências. Genealogias lendárias não são registros coerentes de famílias "reais", mas sim o acúmulo e sobreposição de diversas "camadas" mitológicas, modificando-se e remodelando-se ao longo dos séculos.
Tomando por modelo as genealogias da casa real da cidade de Argos, percebemos uma sucessão de personagens que explicam uma série de fundações míticas: Foroneu (Phorôneus) trouxe o fogo; Argos dá nome à cidade; Io () é transformada em vaca, e em sua fuga acaba dando origem a linhagens estrangeiras. A sucessão de gerações entrelaça heróis famosos como Perseu e Héracles (Hêraklês) a outros obscuros. Como analisar estas genealogias à luz da Mitologia Comparada?
De forma sintética, podemos resumir a sucessão da seguinte forma: O fundador da dinastia é Foroneu, filho do deus-rio Ínaco (Inakhos), que gerou a Ápis (epônimo da Ápia, nome antigo do Peloponeso, a península que forma o sul da Grécia), que morreu jovem, e a Níobe, que amada por Zeus, gerou aos gêmeos Argos e Pelasgos, ancestrais, respectivamente, dos urbanos argivos, e dos rústicos árcades-pelasgos. Argos gerou Forbas (Phorbas), que foi o pai de Tríopas, que por sua vez gerou Agenor (esta é a versão preservada por Pausânias; segundo Apolodoro, Argos gerou Écbaso (Ekbasos), que foi pai de Agenor, que por sua vez gerou um segundo Argos, este pai de Íaso e avô de Io.
Seguindo a versão de Pausânias, Agenor, filho de Tríopas, foi sucedido por seu filho Crotopo (Krotôpos), e depois pelo neto Estênelo (Sthenelos ou Sthenelas) e bisneto Gelanor. Agenor era irmão de Íaso, que gerou Io, princesa que amada por Zeus, foi transformada pela ciumenta Hera em uma vaca, e foi mantida presa, sob a tutela do herói de cem olhos Argos Panoptes. Hermes adormeceu e decapitou Argos, libertando a vaca. Em tal forma, atormentada por um moscardo monstruoso, vagou pelo mundo numa exaustiva perseguição até chegar ao Egito, onde restaurou sua forma original, dando à luz ao filho concebido do deus dos trovões, criança esta batizada de Épafo (Epaphos). Épafo gerou Líbia (Libya), que de Possídon gerou os gêmeos Agenor, senhor da Síria, e Belo, senhor do Egito. Egito gerou também um casal de gêmeos, Dânaos (DanaFos) e Egito (Aigyptos), que tornaram-se inimigos. Danaos seguiu com suas filhas pelo mar e retornou a Argos, que estava assolada por uma peste, e foram recebidos pelo herdeiro do trono, Gelanor, que entregou-lhes o poder.
As cinqüenta filhas de Dânaos, as Danaides, prometeram casar-se com os cinqüenta filhos de Egito, mas na noite de núpcias, assassinaram os noivos. Apenas uma, Hypermnestra, teve pena do marido, e poupou-o. O nome dele era Linceu (Lygkeus), e desta união nasceu Abas, epônimo da cidade de mesmo nome. Abas também um par de filhos gêmeos e rivais, Preto (Proitos ) e Acrísio (Akrisios). Acrísio soube por um óraculo que estava destinado a ser morto pelo neto, e enclausurou sua filha Dânae numa torre. Zeus chegou até ela sob a forma de gotas douradas de chuva, e desta união nasceu o herói Perseu, que viria a ser o ancestral de mais forte dos heróis, Héracles.
Como explicar tudo isso?
Continuarei a falar sobre isso.

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